ENTREVISTA
O participante entrevistado tem 36 anos e é Doutor em Física. O processo educacional relatado é da educação infantil até o ensino médio e foi vivido pelo o entrevistado nos anos 1990 até o final de 2002. A entrevista tem por objetivo investigar o processo educacional vivido por uma pessoa com altas habilidades ou superdotação e paralisia cerebral, ou seja, Dupla Excepcionalidade, com vistas a colaborar com outros alunos nas mesmas condições.
A história de vida do entrevistado teve início no ano de 1985. Nascido com apenas 8 meses de gestação e, por falta de oxigênio, na hora do parto não chorou. Em decorrência das complicações foi necessário ficar internado e já aos 8 meses de vida começou o tratamento com fonoaudióloga, terapia ocupacional e fisioterapia que faz até hoje. O processo escolar do entrevistado iniciou na década de 1990, período em que a educação inclusiva não era muito enfatizada , tendo em vista que a Declaração de Salamanca foi em 1994 e levou um tempo até as escolas públicas se adaptarem. Contudo, não podemos desprezar as práticas dos professores dentro da sala de aula. A legislação nacional em relação à educação inclusiva teve início no Brasil em 1988.
Assim, podemos observar que, durante tempo que o nosso entrevistado esteve na escola, apenas uma legislação contribuiu para a inclusão na escola, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº 9.394/96 (BRASIL, 1996), quem em seu Capítulo III, art. 4º, inciso III, diz que é dever do Estado garantir o “atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino”.
Relate como a escola o recebeu como aluno e como os professores atuavam com você.
Durante a vida escolar eu passei por três escolas, a primeira foi uma escola particular que não me recebeu muito bem, pois me deixava de canto e de lado, ou seja, não soube fazer uma inclusão. Desta forma, pedi para minha mãe me trocar de escola. A segunda, escola pública, foi uma escola especial em que eu fiquei durante 5 anos, lá também fazia tratamento. Minha mãe que ficava na sala de aula contribuindo com o meu aprendizado, assim chegou um tempo que a professora indicou para minha mãe para eu ir para um colégio regular.
A terceira escola foi uma estadual, quando eu cheguei fui acelerado para a quinta série (atualmente sexto ano). Eu fiquei na escola estadual, pois a minha mãe conhecia a diretora. Eu fazia prova no computador da secretaria, minha mãe me acompanhou até o sexto ano e depois até o ensino médio os alunos me ajudavam a fazer anotação, pois naquela época (1990) não tinha tanta tecnologia como hoje.
Descreva como foi a comunicação da escola com a sua família.
Foi constante, a minha mãe tem papel fundamental no processo de escolarização e a inclusão escolar. Naquela época não existia sala de recurso ou professor auxiliar.
Como foi o processo de inclusão na educação infantil, ensino fundamental e ensino médio?
Na educação infantil ao sexto ano minha mãe contribuiu com a inclusão. Do sétimo ano ao ensino médio, colegas de turma que contribuíram, papel carbono e computador da secretaria em que eu fazia a prova e uma máquina de escrever eletrônica.
Quais foram seus maiores desafios dentro do processo de aprendizagem?
Por minha mãe ser professora de História eu fui acusado de que ela fazia os meus trabalhos referentes à mesma disciplina. Acusação feita pelo professor de História, assim, denunciei na coordenação e a turma foi contra o professor, pois fez esta acusação na frente de toda turma. De modo, me senti humilhado, pois, o que ele queria dizer é que eu não tinha capacidade.
Como descobriu a alta habilidade?
As minhas altas habilidades foram descobertas pela professora de uma universidade na qual eu fiz a minha graduação. Eu não acreditava nela, achava que eu era um aluno tão bom como outro. Certo dia a professora me convidou para participar de uma banca, relacionada ao tema altas habilidades ou superdotação, pois na época eu fazia o doutorado e quando eu estava lendo o trabalho percebi que eu tinha todas as altas habilidades, desta forma foi aplicado um teste.
Como a descoberta da sua alta habilidade poderia ter auxiliado no seu processo de aprendizagem?
Eu acho que deveria ter explorado mais esse lado da matemática e ter tido mais estímulo. Eu lembro que na época da escola vivia procurando o professor de matemática e de física, que me indicavam livros e tiravam dúvidas. Mas nada de enriquecimento pedagógico, os professores viam apenas como aluno interessado. Só fui explorar na graduação.
Como um professor pode contribuir para um melhor aprendizado do aluno com paralisia cerebral?
No olhar a deficiência e ter um olhar para além da deficiência, pois a paralisia cerebral pode levar ao pensamento que a pessoa tem deficiência intelectual, mas geralmente não está ligado à deficiência intelectual, é apenas uma deficiência motora que a pessoa pode ter movimentos involuntários e dicção desarticulada — ou até falta de fala.
Por que você acha que nenhum professor descobriu a sua alta habilidade antes?
Eu nunca tinha ouvido falar de altas habilidades. Acredito que foi falta de informação, pois não era algo comum e discutido na década de 1990. Isto foi algo de 2000 para frente, em 2005 eu já estava na graduação. Ou seja, por falta de conhecimento da própria escola.
Você se desestimulou por falta de um enriquecimento no ensino?
Sim, várias vezes. Eu fiquei frustrado, pois queria mais matemática e física e os professores só davam o beabá. Imagina que numa escola estadual, a escola era boa, contudo a realidade no conteúdo de matemática e física era apenas o beabá.
O entrevistado fez Graduação em Física, bacharelado e licenciatura, e terminou o curso com CR 9.15, além de ganhar um prêmio na universidade como melhor aluno em Física. Podemos observar como o conhecimento pode mudar a vida de um aluno se as altas habilidades forem descobertas desde cedo — o entrevistado teria o apoio necessário para o desenvolvimento de suas altas habilidades. Também podemos observar como o preconceito contribui para a desmotivação dos alunos. Por isso, o blog é importante para desmistificar os mitos relacionados às pessoas que têm Paralisia Cerebral com Altas Habilidades (Dupla Excepcionalidade).
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